Por Cayo Eduardo. (Equipe BIG BOY GAMES)

“Oh grande Palden Lhamo, protetora do Budismo e deusa das montanhas de Chomolonzo! Faça as sombras irem embora! Elas perambulam nas ruas. Faça elas irem embora! Elas provem de Chomolonzo carregando a gélida morte. Faça com que as sombras deixem este vilarejo purificado! Elas ocupam teu vale com tristeza e dor! Faça-as irem embora! Tenha piedade e ouça minhas preces! ”

““ Esta foi uma prece transcrita em um dos cadernos encontrados por mim “”.

““ Perdão, deixa eu me apresentar… Meu nome é Erik Simmons, muito prazer. Numa altitude de cinco mil pés, estou à procura do meu irmão Frank Simmons (um dos alpinistas mais respeitados do mundo) desaparecido na província de Chomolonzo, Himalaia – o último local em que foi visto. Como devem ter percebido, ando equipado de apenas um walkie-talkie e um velho gravador à fita K7. Após subir as geladas montanhas desta província, finalmente consegui chegar a um vilarejo. Povoado? Antes fosse “– declarações de ERIK Simmons.

Sentiu o drama?… Uma hora da manhã na madrugada de Sábado. Além do medo, um vento tão ou mais gelado que a ambientação do game invadiu meu quarto, sem bater a porta.

O que aparentava ser mais um título genérico do gênero “Survivor Horror”, é um jogo único; por ter a premissa muito original com impressionante nível de realidade!

Ficha técnica

Plataforma: Wii
Lançamento: 25 de agosto de 2009.
Produção: Deep Silver.
Distribuição: Deep Silver.
Jogadores: 1

Com algumas referências às lendas do Tibet, o novo e exclusivo jogo da Deep Silver pro Wii o transporta para os mistérios mais inquietantes e perturbadores do antigo Budismo primitivo praticado nas montanhas do Himalaia, já que na filosofia e religião mais antiga do mundo existem mais de cem mil diferentes escolas e ramificações.

E que o mistério permaneça em Cursed Mountain.

Há quem diga, que quem vive está morto; e quem morre, vive por viajar rumo ao Paraíso, onde tudo é transitório. Faz sentido, já que em Vida atravessamos uma existência de incessantes sofrimentos através de problemas que se repetem, e assim, aprendemos a enxergar nossas próprias tendências.

O que pode ser mais aterrorizante senão o desconhecido? Às vezes no silêncio é que devemos distinguir nossas vozes interiores!… Assim como a Vida não é só feita de momentos tranquilos, ao contrário do que todos pensam, a história do Budismo introduzido por Sidarta Gautama não só foi construída num ambiente de paz sob a profunda meditação de monges, lordes e sábios; e sim numa época de contestações quando o príncipe indiano ao sair de seu castelo, se deparou com os quatro tipos de sofrimentos: Nascimento, Velhice, Doença e Morte.

Ao observar a repetição dos problemas sofridos por diferentes pessoas, descobriu que a existência era regida por cada ato feito pelo próprio ser vivo; o que resultaria num efeito determinante a cada destino, fenômeno chamado como Causa e Efeito. Concluiu seus estudos budistas, afirmando que tanto Inferno ou Céu materializado por demônios e deuses não se tratavam de fenômenos externos; e sim um estado de espírito latente no interior de cada ser vivo. Bem profundo, não?

Diz a lenda, que a linha que separa o planeta em estado físico do plano espiritual é tênue. E que assim como não existe a inseparabilidade entre o nosso plano e o plano espiritual, somos acompanhados tanto pelos deuses quanto por demônios budistas. Que medo!

Junte todas as linhas de pensamento e superstições às crônicas budistas encontradas pelo protagonista ERIK Simmons, e prepare seus nervos ao andar pelas ruas desertas do vilarejo Lhando. O que o fará sentir medo não é representado por zumbis em bando nem tão pouco gotas de sangue; e sim, a impressão de isolamento aonde alguém disse adeus para sempre!  No fundo, você saberá que alguma surpresa desagradável o espera na próxima esquina da área tida como amaldiçoada.

Após ter encontrado em uma das cabanas uma picareta de gelo e um monge Lama chamado Thod-pa Badhra lhe conceder o poder da percepção através da terceira visão, o ocidental Erik descobre que a tal picareta usada pelo seu irmão guarda poderes místicos.

Espere um instante! Aquilo que você viu passando entre os corredores não é apenas um vulto. São sombras de pessoas mortas relatadas na prece escrita por algum devoto! Serão estes os mesmos espíritos que atacaram o irmão de Erik? Quem sabe…

Passado na década dos anos 80, era que antecede a popularização dos telefones, celulares, GPS e outras tecnologias; ao invés de armas de fogo, Erik usa a picareta de gelo contra as sombras perambulantes, que quando acoplada a uma faca mística nomeada “Kartrika” faz com que o protagonista viaje ao plano espiritual, liberando descargas elétricas. Depois de neutralizados, é necessário que você realize um ritual em forma de “MUDRAS – mágicos gestos simbólicos feitos com as mãos” realizadas através de movimentos pré-determinados do “Wiimote” para desintegrar os espíritos do plano material. A mecânica inovadora também é usada para desativar algumas portas bloqueadas.

Pena que a fórmula que mistura fantasia e realidade se torna repetitiva mais a frente, por mais tensa que sejam os combates contra os espíritos do lado de lá.

Enfrentar cada um dos chefes de Cursed Mountain é um show a parte, por serem baseados nos deuses e demônios budistas!

Além de talismãs, artefatos e enigmáticos telegramas, Erik tenta decifrar os mantras (cânticos em sânscrito considerado uma língua morta) e busca encontrar pistas através das parábolas anotadas em diários e mandalas pintados em panos sobre as paredes das cabanas. Os incensos usados para reverenciar os ancestrais e purificar o ambiente, recarregam sua energia vital.

Uma produção bem acima da média.

O velho ditado popular “não julgue o livro pela capa” se encaixa perfeitamente ao quesito. Os produtores da competente Deep Silver não estavam brincando quando declararam que ao utilizar uma nova engine, eles proporcionariam um dos visuais mais bonitos do console de natureza diferente da Nintendo! Desde o início de Cursed Mountain, quando Erik Simmons equipado de apenas um walkie-talkie (emitindo a voz pelo speaker do “Wiimote”) sobe as montanhas do Himalaia, se percebe o detalhamento do cenário muito bem construído e modelado, invejáveis efeitos de partículas para reprodução dos efeitos climáticos, personagens refletidos por sombras dinâmicas em movimento em falhas de colisão e o modo tão realista com que o protagonista se move; dentre outras qualidades.

A direção artística impõe respeito por reproduzir com tamanha fidelidade, as ruas desertas do gigantesco vilarejo repleto de cabanas e templos budistas pincelados por cores e texturas adequadas rodando a 60 frames por segundo sem caídas de quadros e tão pouco os famosos loadings. Mais impressionante é quando você atinge outras altitudes e ao olhar para baixo, avista todo o ambiente gerado em tempo real do mesmo jeito quando estava próximo!

O que seria um filme de terror se exibido em cinema mudo? Talvez um programa tão incomunicável quanto um canal fora de transmissão. Ao invés de pianos e violinos, imaginem que seus ouvidos serão perturbados por vozes de monges em oração, sinos, choro de pessoas aflitas senão quando surpreendidos por sussurros do som ambiente onde a ventania acompanhada por vultos te chama pelo sobrenome!

Os jogadores mais exigentes e experientes torcerão o nariz por Cursed Mountain não oferecer grandes desafios para se chegar ao final. O mais curioso é que, nesta versão final não há suporte ao recém-lançado acessório “Wii-motionPlus”. Na verdade, nem precisou. Mesmo que simplificados, todos os comandos e gestos são reconhecidos com precisão.

Mesmo com alguns deslizes como à repetitiva fórmula de enfrentar os espíritos e a ultrapassada mecânica de procurar por chaves secretas para abrir portas, a atmosfera nunca antes vista e a bem elaborada história de Cursed Mountain são convidativas o suficiente para prender sua atenção até que descubra o que realmente ocorreu com o irmão de Erik Simmons.

Você não terá uma experiência similar em um jogo do gênero para outra plataforma.

Gráficos/ Direção de Arte = 9

Som & Efeitos Sonoros = 9

Controle & Interatividade = 8

Diversão & Criatividade = 9

Movimentação & Fluência = 8

Longevidade = 8

Média = 8